🌑 A vida não é uma linha reta
Sobre se organizar em ciclos
🌀 Todo final de novembro é a mesma coisa: um cansaço surreal, uma vontade que o ano acabe de uma vez e foda-se misturada a uma ansiedade patológica em terminar tudo antes que o próximo ano comece. Juntamos forças para aquele último suspiro pra fechar tudo com chave de ouro, colocar uma roupa branca e prometer que vai ser diferente no ano que vem. Só que não existe isso de fim do ano.
Não tem fechamento. Nem chave tem, muito menos de ouro. Até essa palavra, fechar, é estranha, como se o fim do ano fosse uma porta que a gente tem que atravessar e trancar antes de 31 de dezembro. Se não, não dá pra passar pro próximo nível e encarar o chefão. A ideia é que se ainda tiver alguma coisa no seu planner/agenda/lista/grupo de whatsapp com você mesma em 1º de janeiro, você falhou como ser humano.
O calendário gregoriano dá a impressão que a passagem do tempo é um progresso. Estamos sempre indo pra frente. Os anos se somam, um depois do outro, e perdemos a dimensão de que os meses se repetem num ciclo. É abril de 22, abril de 23, abril de 24... Só que não estamos nessa linha reta ascendente, nem em um círculo que nos faz girar e girar no mesmo lugar. A vida é uma espiral. Voltando aos mesmos pontos, mas em outros níveis, subindo e descendo numa dinâmica cíclica e ritmada.
Quando comecei a pensar na vida cíclica, algo se deslocou: se o tempo não é linear, se não estamos indo pra frente, então não tem linha de chegada, não tem nem largada. Sempre vamos passar pela fase de início, ápice e fim de tudo, desde projetos até relacionamentos. Tudo, absolutamente tudo, é um grande ciclo vida-morte-vida. É uma percepção ao mesmo tempo da elasticidade e da finitude de tudo. É o paradoxo da vida. E isso me traz paz.
Depois que comentei por aqui que me atento muito às fases da lua no meu planejamento, alguma pessoas me perguntaram como fazer. Bem, um exemplo prático é essa newsletter que publico na lua nova e/ou na lua cheia. Cada fase tem duração de uns seis dias, então fico menos presa a uma data fixa como um dia da semana. Me traz regularidade, mas sem a pressão de algo invariável. Não preciso ficar fritando que toda quinta-feira de manhã tenho que postar algo, mesmo se minha vida estiver entrando em chamas por algum motivo. É uma constância sem piração.
Outro aspecto a considerar é a própria natureza. Além de nos conectar com o lugar em que estamos, esse grande ciclo que é a relação Terra e Sol nos dá uma perspectiva interessante sobre nossos processos. Eu sigo a Roda do Ano (os oito grandes marcos do nosso planetinha: Solstícios e Equinócios, mais os pontos entre eles), mas as estações do ano já ajudam muito.
No outono é hora de desacelerar; o clima vai ficando cada vez mais seco. Chega o inverno tão esturricado que o céu é azul puro e dá vontade de fazer um casulo e cuidar do que é nosso. Na primavera venta muito e começamos a esperar as chuvas de novo, é uma época inquieta e imprevisível. Já o verão vem com chuvas torrenciais e um sol de arder a pele: ou a gente se joga ou é engolido pelo calor.
Essas são as estações no meu pedacinho de chão aqui em Minas Gerais, mas o legal é observar o lugar onde você está. No começo é muito estranho, especialmente pra quem mora em áreas muito urbanas, mas a natureza está presente mesmo em meio ao asfalto. Uma boa dica é observar onde o sol bate na sua casa em cada uma das estações. Prestar atenção no mundo à nossa volta todo dia, inclusive, pode trazer a sensação de que a vida é mais que o capitalismo tardio.
As fases da lua são um ciclo menor dentro do ciclo maior das estações. Além das postagens dessa newsletter, eu uso as lunações para marcar meus projetos. Exemplos: projeto X começo na lua nova, vou terminar em três lunações. Já um outro é de lua cheia, vou terminar em uma lunação. Como o ciclo lunar é de 29 dias, 12 horas e 44 minutos, esse tempo atravessa os dias da semana e o calendário gregoriano, então não preciso ficar presa em datas. Vem essa sensação de tempo elástico, mas constante, tão contrária às exigências dos algoritmos e planners de coach.
Indo mais fundo, temos nossos ciclos internos, os do corpo mesmo. As nossas percepções de quando somos mais produtivas, mais letárgicas, mais enérgicas durante o dia. Pessoalmente, gosto de mapear o ciclo menstrual porque faz sentido pra mim como mulher cis. As variações hormonais desse ciclo me ajudam a colocar o pé no freio e dizer: “Não inventa moda. Segura essa onda. Daqui a pouco passa". E passa mesmo. Isso é bastante libertador.
Obviamente o calendário oficial ainda é o gregoriano e tem coisas que têm prazo para entregar, com data certa, e não dá pra adiar. Muita coisa não depende de nós. Mas eu tento (ênfase no tentar da coisa) considerar o mínimo da ciclicidade dentro das tarefas. Por exemplo: tá um calor dos infernos no verão? Essa semana vou aplicar prova pros meus alunos e ficar mais quieta ou vou aproveitar essa energia da estação pra fazer uma aula animada? Se tenho que entregar um projeto escrito e é inverno, é melhor fazer tudo numa sentada ou fazer devagar, um pouquinho em cada dia? Não tem receita certa e essa é a beleza.
31 de dezembro é só uma data no calendário. Se coisas ficarem pendentes, tá tudo bem. Não existe perder tempo. O tempo não se ganha nem se perde. O tempo é. E nenhuma quarta-feira é igual à outra, inclusive a última do ano.
📒 “Meu 100% não é sempre igual”. Esse é um dos lemas que aprendi com a Yasmin Barroso, da Flor de Mim, uma grande referência de organização e planejamento semanal que tenho. Além de vender os planners, ela faz um conteúdo maravilhoso de podcast e vídeos de planejamento no youtube e no instagram que revolucionaram real minha forma de listar tarefas. São coisas simples e descomplicadas, fora daquele papo chato de coach de produtividade. É o planejar pra viver uma vida cheia das coisas que a gente gosta e não planejar pra fazer o máximo de coisas num dia.
🌸 Agora se formos pra pegada mais profunda da coisa, recomendo o trabalho da Caroline Amanda, na Yoni das Pretas. Foi com ela que aprendi sobre um planejamento mais detalhado com as estações do ano e os ciclos da vida, além de ter insights incríveis sobre nossas formas de viver. Muitos eventos online da Yoni é no esquema pague-o-que-puder e a comunidade é sensacional. Tudo é tratado com muita seriedade e profundidade sem deixar de lado as questões sistêmicas que atravessam nossas vidas.
🌑 Último dia da lua nova da décima primeira lunação desse ciclo! A do ciclo anterior caiu em dezembro. Lembram dela?
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Esse texto foi escrito por uma humana.








Eu não sabia que precisava tanto ler isso. Tenho que reaprender a calcular o meu tempo, o meu ritmo. Obrigada, Mel!