🌕 Os lugares que somos
e outras histórias
Lugar é espaço vivido. Tem afetividade, memória. É diferente de espaço, que é apenas o local geográfico. Um lugar respira. Tem cheiros e sons. Nos faz sentir coisas só de pensar ou voltar para ele, mesmo que nem sempre essas coisas sejam agradáveis. O lugar é essencial para a sensação de pertencimento, seja por querer se afastar, seja por querer retornar. Lugares são também ligados ao tempo. Certos lugares só existem para nós em certas épocas. Quase como uma manipulação da tessitura da realidade, lugares podem ser eles mesmos ou outros dependendo da década ou do ano que evocamos. Lugares são um multiverso em que versões deles mesmos coexistem para diferentes pessoas, em diferentes linhas do tempo. Somos também os lugares que habitamos.
Ulisses demorou dez anos para voltar a Ítaca. Chegando lá, ele descobriu que o lugar de onde partiu não era o lugar no qual chegou e foi preciso criar um lugar novo para poder se sentir em casa com a pessoa que se tornou. Não é à toa que tem uns 2.800 anos que estamos contando essa história e agora com direito a filme do Christopher Nolan.
Quando eu era adolescente, nunca entendi as autoras e autores que escreviam sobre sua cidade natal. Na minha cabeça, Belo Horizonte era um lugar chato. Não tinha nada pra fazer. Como eu ia escrever sobre um lugar assim? Não, eu não era o cliché que queria ir embora da cidade a qualquer custo pra viver grandes aventuras etc, etc, eu só achava que não tinha histórias interessantes ali. Naquela época eu escrevia muito o que a Clara Madrigano uma vez chamou de Anglaterra. Vocês sabem como é: um reino, guerras, corte, pessoas de nome como Corrin.
Sendo de Minas Gerais, sempre li e ouvi dos escritores que falavam sobre essa terra. Quando estava no início da graduação em Letras, fui por um ano e meio bolsista no Acervo dos Escritores Mineiros, na biblioteca central da UFMG. Inicialmente, nada daquilo fazia sentido na minha cabeça; Drummond com saudade de Itabira, toda aquela gente que fazia poesia, ficção, arte a partir de Minas Gerais.
Entender o lugar de onde a gente vem é uma das coisas que, feliz ou infelizmente, vem com a idade.
Nasci em Venda Nova, na região norte de Belo Horizonte. Longe de onde a galera do Clube da Esquina e dos Modernistas se fizeram. Hoje moro no interior, no quadrilátero ferrífero, há duas horas do chão que me viu nascer. Faz quase dez anos que estou por aqui e foi nesse movimento que comecei a querer escrever sobre Venda Nova. Não Belo Horizonte, mas Venda Nova.
A primeira empreitada foi “Noite de Caça”, um mini conto de fantasia urbana sobre uma caçadora de demônios fazendo ronda no famoso baile da Vilarinho nos idos e vindos dos anos 2000. Então veja bem: não apenas escrevi sobre minha casa, mas sobre a época em que eu estive lá. Eu tentei recriar um lugar no qual me sentia pertencente.
Tem uma citação de T.S. Eliot que sempre me fascinou. Não porque eu seja o tipo de pessoa que consegue citar poetas ou que eu goste de Eliot, mas porque esse trecho era abertura de um dos filmes que eu via na Sessão da Tarde quando criança, do qual não consigo lembrar o nome:
Nunca deixe de procurar. O fim de todas as nossas buscas é chegar onde começamos e conhecer o lugar pela primeira vez.1
Eu sentia que era algo importante, mas não entedia o que estava por trás. Agora eu entendo.
Nos últimos anos, fui confrontada com duras verdades sobre a ficção que escrevo: a fantasia urbana com uma caçadora de demônios e sua melhor amiga bruxa passeando pela Belo Horizonte dos anos 2000 é a recriação mágica dos meus lugares. A casa da avó da caçadora é uma versão do mundo invertido da rua dos meus pais, as rondas à noite das amigas são pelas avenidas que eu passava de ônibus todos os dias quando ia para a escola e, depois, para o trabalho.
É um cliché literário quase patético, mas é real. E ainda dá pra ir mais longe: é óbvio que Metrópole se passa em uma Minas Gerais onde o desastre ambiental transformou, finalmente, o cerrado em caatinga. A jornada de Midra e Andrella é do Triângulo Mineiro até Belo Horizonte. Uma vez olhei no mapa rodoviário e a rota faz todo sentido. Não fiz de propósito, mas não consigo deixar de me sentir um tanto quanto decepcionada pela obviedade do meu inconsciente nessa psicanálise selvagem.
Claro que nem tudo é uma escrita sobre nossos lugares. Às vezes só colocamos uma pintura por cima e chamamos de outra coisa. Ursula K. Le Guin (sempre ela, juro que não é de propósito) transformou as florestas da Califórnia e do Oregon da sua infância em um mundo outro em Always Coming Home, mas aquilo ali ainda cheira a Califórnia e Oregon. A gente sai escrevendo sobre naves contrabandistas no espaço, mas no fim das contas ainda é sobre os comerciantes figurões de Venda Nova. Sobre os vizinhos chatos. Sobre os medos e ansiedades que a gente tinha e sobre o que achávamos que éramos nos lugares que já habitamos.
Ao recriar nosso lugar em um mundo imaginário, é como se pudéssemos tê-lo para sempre. É como se aquele sentimento e vínculo pudessem permanecer intactos dentro de nós. Nós conhecemos os meandros, as engrenagens e as voltas: nós pertencemos ali. Mas lugares só são lugares porque estão em movimento. Porque nunca são os mesmos, nem mesmo pra mesma pessoa.
Tá aí a Odisseia que não me deixa mentir.
Mas pra além de fazer o movimento de construir um lugar novo para nós mesmos, existe uma outra vereda não muito utilizada: entender que o mundo inteiro já é nosso lugar. Esse planetão todo. Desde o bairro onde nascemos até lugares que nunca vimos nem nunca vamos ver. Que sequer sabemos que existem e que também não sabem da nossa existência. Que são parte, no entanto, disso que chamamos mundo.
Talvez esse seja o plural de lugar.
outras histórias:
📚 Como comentei na última news, estou relendo Floresta é o nome do mundo para uma disciplina que estou ministrando esse semestre e estou amaldiçoando a Melissa do passado que fez essa escolha. Que livro brutal. Poético e avassalador. É sobre vermos nosso lugar ser roubado de nós da forma mais violenta possível e sentir que nunca poderemos voltar ao lugar de antes porque fazer isso seria olhar para um mundo onde não nos tornamos o que mais odiamos. E isso dói mais que qualquer coisa. Dito isso, recomendo!
📺 Estou reassistindo uma das minhas séries favoritas de todos os tempos: Star Trek: Discovery. Gosto de como um dos grandes temas dessa história seja esse de encontrar o lugar que pertencemos em vários níveis: no passado familiar, na relação tóxica com o trabalho, nos laços afetivos e até na parte em que se é atirado no espaço-tempo para tentar salvar o mundo. A Michael é uma das minhas personagens favoritas de todos os tempos (e lugares). Ela tem um treinamento lógico foda, mas é pura emoção, intuição e empatia, o que faz com que tenha o respeito de todos à sua volta. E isso, numa mulher negra, é radiante. Quem não viu, eu recomendo. Mesmo quem nunca tenha visto nada de Star Trek.
🌕 Lua Cheia da terceira lunação do ano! Amo como nessa época do ano dá pra ver a lua até durante o dia nesse meu lugarzinho da Terra.
leia também:
Esse texto foi escrito por uma humana. | melissadesa.com.br
Tem uma tradução mais decente aqui: T. S. Eliot, do último poema – Helena Barbas









Se quer ser universal, fale do seu quintal. Lá e de volta outra vez. É isso.
Meu marido me zoa quando falo que sou de Venda Nova. Mas tá aí meu sotaque regional que não me deixa mentir. Além das memórias corporais de bater perna embaixo do sol torando.
Surreal vai ser meu filho tendo memórias afetivas de ter sido criado em Santa Luzia, sendo que eu mesma só fui conhecer essa cidade aos 27 anos.